Dilma passa um sabão no Tio Sam

16/04/2012

Por Saul Leblon no site Carta Maior

A participação insípida do presidente dos EUA, Barack Obama, na Cúpula das Américas foi a personificação de um divisor histórico: o império nada tem a dizer ou a propor de relevante aos povos latino-americanos. Em crise, patinando entre a tibiez de uma estratégia econômica que se compraz em mitigar a ortodoxia em casa e uma diplomacia bélica que chafurda na areia movediça de conflitos múltiplos e insolúveis, do Oriente Médio à Coréia, passando pelo embargo à Cuba e querelas com a Venezuela, o poderio ianque naturalmente não está derrotado. Mas é visível a sua exaustão. Obama personifica-a como um Tio Sam cansado da guerra.

Ainda que seja o melhor que a política norte-americana tem hoje a oferecer, convenhamos, é parcimonioso. Essa percepção de esgotamento extravazou das intervenções do democrata em Cartagena, na Colômbia. A um mosaico de nações que luta contra um legado secular de pobreza, desigualdade e truculênca nas relações com o Big Brother, e ainda assim desponta como um dos horizontes mais dinâmicos da economia mundial, Obama ofereceu a velha e gasta ‘cooperação’ do mascate viajante.

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“É inaceitável outra Cúpula das Américas sem Cuba”, sentencia presidente colombiano

16/04/2012

Correio do Brasil

Por Redação, com Carta Maior – de Cartagena, Colômbia

Cuba

Após inaugurar a sexta Cúpula das Américas, o presidente da Colômbia, Juan Manuel Santos, pediu que fosse deixada para trás a teimosia ideológica na questão cubana e que fosse superado um “anacronismo da guerra fria”. Além disso, afirmou que uma nova reunião de cúpula da região sem a presença de Cuba seria inaceitável. E, da mesma forma, seria inaceitável uma nova cúpula com um Haiti prostrado na pobreza extrema.

Diante da maioria dos mandatários da região, incluindo o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, e o primeiro ministro canadense Stephe Harper, que se opuseram à presença de Cuba neste encontro continental, Santos – um dos principais aliados norte-americanos na região – ecoou, assim, a controvérsia surgida na véspera entre os chanceleres, que não chegaram a um acordo sobre o documento final da cúpula. Os dois países da América do Norte rejeitaram incluir no texto a necessidade de incorporar Cuba em futuras reuniões.

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Dilma sobre gestos à esquerda: ‘Fico estarrecida com pergunta’

02/02/2012

Em viagem a Cuba, Dilma Rousseff mostra surpresa ao ser questionada sobre coincidência de duas recentes agendas com público de esquerda – a outra foi a ida ao Fórum Social. Diz achar ‘interessante’ modo como mídia analisa atos dela e ter ficado ‘estarrecida’ com esse tipo de pergunta. Em março, Dilma deve retribuir visita de Barack Obama com viagem aos EUA.

Carta Maior – André Barrocal

Havana – A presidenta Dilma Rousseff teve nesta terça-feira (31) a chance de definir-se como de “esquerda” e de fazê-lo num lugar símbolo do ideal socialista na América Latina. Em vez disso, reagiu com surpresa ao ser questionada, em entrevista em Cuba, sobre recentes sinais políticos que emitiu nos últimos dias, incluindo a visita oficial à ilha de Fidel Castro.

Presidenta, a senhora começou o ano indo ao Fórum Social e agora vem a Cuba, são gestos políticos mais à esquerda. Por que a senhora fez isso? 

“Eu acho interessante a forma como a mídia analisa meus atos… Posso te dizer uma coisa? Eu fico estarrecida com esse tipo de pergunta, estarrecida. Porque… significa que no ano passado eu fui à União Européia, recebi os Estados Unidos (…), fui no G20, fui pra Argentina… Como é que a gente interpretaria o ano passado?”

No roteiro internacional 2012 de Dilma, aberto com a visita a Cuba, está previsto também que ela viaje aos Estados Unidos, provavelmente em março, em retribuição a uma visita feita pelo presidente Barack Obama ao Brasil no ano passado.

Dilma já esteve nos EUA, como presidenta, mas foi para abrir a Assembléia Geral das Nações Unidas no ano passado.


Colunismo de insulto como o da Veja é uma invenção americana

12/11/2011

Do Blog da Cidadania por Eduardo Guimarães

“Canalha”, “sem-vergonha”, “farsante”, “vagabundo”, “ladrão”… Não, aqui não se irá aludir a um “barraco” qualquer em uma feira, a uma briga de torcidas em um estádio de futebol ou a algum chilique de algum proxeneta em algum prostíbulo, mas a um estilo pretensamente jornalístico de “comentários políticos” que se tornou regra na grande imprensa brasileira ao lado do que ela publica como noticiário “isento”, que, no mais das vezes, não passa de mais opinião, só que disfarçada.

Isso que pretendem que seja jornalismo só funcionou por aqui porque foi criado por “lá”, ou seja, nos Estados Unidos, país que influenciou decisivamente a edificação de um modelo político-institucional brasileiro no qual um sistema de determinados “contrapesos” torna os governos politicamente frágeis sob a “garantia” de que não podem ter muito poder porque estariam permanentemente tentados a cometer excessos.

O criador desse estilo que faz hoje a cabeça do colunismo brasileiro foi o americano Irving Kristol, nascido em Nova Iorque em 1920 e falecido em Falls Church em 2009. Foi escritor, jornalista e intelectual. Entrou para história como “padrinho do neoconservadorismo”, um movimento pseudo jornalístico que ganhou força nos Estados Unidos durante a segunda metade do século XX.

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Pânico em Washington

16/10/2011

Por Mauro Santayanna

Ao morrer anos antes, Guimarães Rosa perdeu outro tema que a realidade dos sertões mineiros poderia ter oferecido à sua ficção: a da enlouquecida matança de inocentes por alguém acossado pelo medo de inimigos imaginários.

Durante alguns anos, um rico fazendeiro de Curvelo – cidade próxima a Cordisburgo, terra do escritor – manteve pequeno e eficiente grupo de pistoleiros, aos quais encarregava de identificar e matar suspeitos de tramar a sua morte. Os pistoleiros, que recebiam por empreitada, agiam com esperteza. Quaisquer estranhos que surgissem no município eram logo denunciados ao patrão, que, depois de exame sumário da situação, ordenava o assassinato. Os crimes só foram descobertos muito tempo depois, quando, por acaso, descobriram uma cisterna abandonada no distrito de Andrequicé, onde o fazendeiro tinha terras. Nela, exumaram-se ossos de trinta e seis vítimas. Os fatos foram conhecidos em 1975.

As investigações revelaram o horror: nenhuma das vítimas conhecia, sequer, o fazendeiro amedrontado. Eram caixeiros viajantes; turistas escoteiros, atraídos pelas grutas da região e pela represa de Três Marias, homens nascidos nas redondezas que, vivendo longe, visitavam seus parentes.

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O Pêndulo da história escapa ao conservadorismo

20/09/2011

Editorial da Carta Capital

Há uma travessia em curso no pêndulo da crise mundial. Sua  velocidade é crescente . A esquerda brasileira, as forças progressistas e o próprio governo devem apertar o passo para não se perderem na inútil batalha do dia anterior. Vive-se um deslocamento de forças e percepções para fora do centro de gravidade do conservadorismo mercadista.  O discernimento da sociedade já não cabe mais em velhos perímetros calcificados pela  ortodoxia.  O campo conservador desidrata a ponto de regurgitar expoentes e agendas do centro político. Editoriais e o colunismo da chamada grande imprensa colidem diariamente com o seu próprio noticiário. O dispositivo midiático demotucano apregoa aquilo que a página seguinte evidencia ser a catástrofe em marcha na vida das nações. Por mais que se desvirtue a realidade o efeito espelho  percola   a formação das consciência, argui certezas e desacredita receitas.

A agenda que  dobra a aposta na doutrina  neoliberal perde legitimidade na esteira de uma contradição insolúvel: as bases sociais mais amplas beneficiadas por esse modelo estão agora sendo pisoteadas por ele. A classe média europeia ou a norte-americana verga sob o peso brutal da instabilidade que devora o lastro econômico e a sua contrapartida subjetiva. A mudança é abrupta e truculenta. Se a esquerda não se credenciar, a extrema direita só ocupará o vácuo pela violência, a intolerância e a xenofobia. A 2ª feira foi particularmente pedagógica na exposição dessa nova moldura.  Nos EUA, o presidente Barack Obama  –um exemplo de centro expelido pelo estreitamento conservador-  demarcou seu campo na luta pela reeleição. E o fez afrontando o fiscalismo suicida que ancora a doutrina do Estado mínimo. O resumo de sua diretriz orçamentária poderia ser traçado em uma frase: Obama corta R$ 1 trilhão da guerra e quer US$ 1,5 trilhão em impostos dos ricos. Os republicanos acusaram o golpe duplo contra o seu altar. E voltaram a falar o idioma da guerra fria para carimbar a plataforma orçamentária de Obama de ‘guerra de classes’.

A coalizão conservadora que no Brasil se opõe  ao financiamento do SUS com uma taxa de 0,1% sobre operações financeiras ainda não se expressa assim. Mas age como se tal fosse. Se Obama afrontou o extremismo, por que haveriam de recuar as forças que expressam a angústia da fila do SUS? (leia reportagens sobre o assunto nesta pág). O outro impulso pedagógico no pêndulo político da crise teve como alavanca a imolação final da Grécia cobrada pela ortodoxia do euro. Ao pedir mais sacrifícios a uma sociedade que arde na pira neoliberal,  os guardiões da fé conservadora vestiram ostensivamente o capuz do algoz. A tal ponto que Nouriel Roubini, o outrora mister catástrofe, ao apregoar o calote da Grécia em entrevista ao Financial Times, soou apenas como sensato, em contraposição à estridência alucinada dos que verbalizam a ‘razão’ dos mercados.


Obama, ou como não ser um líder

16/07/2011

Do Blog Tijolaço, de Brizola Neto 

Da BBC,ontem à noite:

“Depois de uma semana inteira de negociações diárias sem resultados concretos, o presidente americano, Barack Obama, disse nesta sexta-feira que os congressistas precisam apresentar uma proposta sobre a dívida do país nas próximas “24 horas”.”Obviamente, nosso prazo está se esgotando”, afirmou Obama, em entrevista coletiva na Casa Branca. “Então, o que eu disse aos membros do Congresso foi: ‘Vocês precisam, nas próximas 24 ou 36 horas, me dar alguma ideia de qual é o seu plano para elevar o teto da dívida’”, disse o presidente.”

E na Reuters:

“Mostre-me um plano sobre o que está sendo feito em termos de redução de dívida e déficit. Se eles me mostrarem um plano sério, estou pronto para me mover, mesmo se isso for requerer decisões difíceis”, disse Obama.”

Francamente, chega a ser ridículo.

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