A lógica da cidade dividida

16/10/2012

 

 Por Saul Leblon no site Carta Maior

 

São Paulo quase não enxerga suas periferias e favelas, que chegam à opinião pública filtradas pela geografia e as más notícias, ecoadas de um bantustão remoto.

O jornalismo sobre esses lugares –com raras exceções– alterna episódios de execuções e massacres; mais recentemente, incêndios. É o vínculo que ressalta em relação ao poder público. Sangue, repressão e desamparo.
Trinta e três favelas arderam este ano em SP. Transparências superpostas desenham semelhanças suspeitas entre o rastro das chamas e o da cobiça imobiliária.

As labaredas iluminam também o descaso. O consórcio Serra/Kassab não liberou nenhum centavo do programa de prevenção de incêndios em favelas em 2012 — ano que SP viveu a segunda maior seca da sua história. Passemos.

A narrativa da tragédia reiterada criou um analgésico em relação a esse mundo desautorizando qualquer expectativa de inovação.Nada. Exceto alguma melhoria incremental, impulsionada não por uma mudança intrínseca aos seus fundamentos, mas pela lenta aproximação do algoz, ‘o progresso’, que um dia se apossará do limbo, capitaneado pelas betoneiras do interesse imobiliário.

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São Paulo vai morrer

13/06/2012

Por João Whitaker, no sítio do Correio da Cidadania:

As cidades também morrem. Há meio século, o lema de São Paulo era “a cidade não pode parar”. Hoje, nosso slogan deveria ser “São Paulo não pode morrer”. Porém, parece que fazemos todo o possível para apressar uma morte anunciada. Pior, o que acontece em São Paulo tornou-se infelizmente um modelo de urbanismo que se reproduz país afora. A seguir esse padrão de urbanização, em médio prazo estaremos frente a um verdadeiro genocídio das cidades brasileiras.
Enquanto muitas cidades no mundo apostam no fim do automóvel, por seu impacto ambiental baseado no individualismo, e reinvestem no transporte público, mais racional e menos impactante, São Paulo continua a promover o privilégio exclusivo dos carros. Ao fazer novas faixas para engarrafar mais gente na Marginal Tietê, com um dinheiro que daria para dez quilômetros de metrô, beneficia os 30% que viajam de automóvel todo dia, enquanto os outros 70% se apertam em ônibus, trens e metrôs superlotados. Quando não optam por andar a pé ou de bicicleta, e freqüentemente demais morrem atropelados. Uma cidade não pode permitir isso, e nem que cerca de três motociclistas morram por dia porque ela não consegue gerenciar um sistema que recebe diariamente 800 novos carros.

A pigarra tucana

26/05/2012

Por Saul Leblon no site Carta Maior

É um velho truque do conservadorismo brasileiro reiterado ao longo da história: quando a raiz dos problemas repousa nas entranhas de seu aparelho administrativo ou no descaso histórico com as prioridades da população, desfralde-se a bandeira udenista da sabotagem perpetrada por ‘agitadores’.

A lenga-lenga exala naftalina e remete ao linguajar pré-golpe de 64, mas encontra em São Paulo 71 quilômetros de motivações para ser ressuscitada com regularidade suíça pela pigarra do PSDB. Nessa rede escandalosamente saturada e curta do metrô –inferior a da cidade do México, por exemplo, com 200 kms– os registros de panes, acidentes e interrupções tem exibido frequência preocupante: só este ano foram 143 ocorrências, 33 delas sérias.

Nesta 4ª feira, a pigarra conservadora aproveitou a greve salarial dos metroviários para isentar a gestão temerária por trás dos transtornos renitentes. A narrativa é a de um ‘jornal da tosse’; gargantas raspando pastilhas Walda emitem denúncias de sabotagem e insinuam ‘incêndios do Reichstag’ de olho nas eleições municipais. Agitadores conturbam o ambiente da metrópole; não fosse isso, os serviços públicos tucanos deslizariam no azeite fino de oliva.

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Internet supera o jornal impresso como segunda mídia mais acessada de 2012, mostra pesquisa

13/05/2012

Do Correio do Brasil

internet

Fabio Coelho, presidente do IAB-Brasil: Internet ‘é um meio pujante’

A internet assumirá a segunda posição entre as mídias ainda em 2012, deixando o meio jornal para trás. Segundo estimativa apresentada pela seccional brasileira da agência Interactive Advertising Bureau (IAB Brasil), o meio digital crescerá 39%, fechando o ano com 13,7% de participação e faturamento na casa dos R$ 4,7 bilhões. Em 2011, a web representava 11% do polo publicitário.

Para Fabio Coelho, presidente da IAB-Brasil, o crescimento do mercado de buscas será de 50% e o de display (banner) terá incremento de 25%. Coelho – que também preside o Google Brasil, confirma o crescimento da internet no país, em média, quatro vezes mais do que o mercado de publicidade, em geral – e esses números não contabilizam as redes sociais. A agência, em breve, divulgará uma estimativa de faturamento para este ano, em que sites como Facebook e Twitter estarão envolvidos.

As 100 maiores empresas do país investem 13,4% de suas verbas publicitárias no meio digital, segundo Coelho, que considerou a web um mercado “pujante”. Para chegar aos resultados apresentados hoje, o IAB considerou 80 milhões de internautas no país maiores de 16 anos, dos quais 49% pertencem às classes C, D e E e 51%, às A e B.


O terrorismo contra a greve de Jirau

17/03/2012

Por Altamiro Borges no seu Blog


Os operários da hidrelétrica de Jirau, em Rondônia, que entraram em greve nesta semana por melhores salários e condições de trabalho, estão sendo vítimas de brutal e implacável perseguição. A mídia os trata como “bandidos” e o Tribunal Regional do Trabalho (TRT) decretou a ilegalidade do movimento. Apesar do cerco, em assembleia realizada ontem (16), os peões decidiram manter a greve.

O TRT ordenou o retorno imediato ao trabalho e fixou multa diária de R$ 200 mil para o Sindicato dos Empregados da Construção Civil do Estado de Rondônia no caso do descumprimento da sentença. As reivindicações dos operários – entre elas, aumento de 30% nos salários, cinco dias de folga a cada 70 dias trabalhados e plano de saúde – sequer foram consideradas pela “Justiça”.

Arrogância da Camargo Corrêa

Além do Judiciário, o governo estadual também faz terrorismo contra os grevistas. A Secretaria de Segurança de Rondônia pediu, inclusive, à presidenta Dilma o envio de soldados da Força Nacional para “evitar distúrbios”. O clima no canteiro de obras da usina de Jirau é de forte tensão e pode resultar em violentos confrontos – a exemplo do que ocorreu em março do ano passado.

Amparada pelo Judiciário, pelo governo estadual e pela mídia patronal, a bilionária Camargo Corrêa, responsável pela construção, ainda provoca os grevistas. Em comunicado, ela afirmou que a greve é culpa “de um pequeno grupo de agitadores”, disse que as condições de trabalho são excelentes e ainda pediu a imediata ilegalidade do movimento. Pura arrogância patronal!

Os 15 mil peões da Camargo Corrêa que cruzaram os braços criticam exatamente as péssimas condições de trabalho e os míseros salários. A greve teve início numa das empresas terceirizadas, Enesa, e ganhou a adesão dos operários da poderosa empreiteira. Segundo a direção estadual da CUT, as condições de trabalho na obras da hidrelétrica de Jirau são desumanas, degradantes e inseguras.


A descoberta do paraíso terrestre

16/02/2012

Por Mino Carta na Carta Capital
Que diria hoje Americo?

Quando em 1501 Americo Vespucci chegou ao deslumbrante recanto em que anos depois seria fundada São Sebastião do Rio de Janeiro, ficou extasiado. Mais tarde escreveria: “É o paraíso terrestre”. Há quem considere Vespucci mais importante do que Colombo, certo é que foi o florentino quem desfez a crença do genovês: a terra alcançada não era a Ásia, as Índias, mas um novo, inesperado continente. O qual, por isso, se chamou América.

Vespucci, aliás, é o verdadeiro descobridor do Brasil, Cabral foi quem tomou posse da terra “onde tudo, em se plantando, dá”. O navegador toscano fez -duas viagens americanas. A primeira em 1497, a serviço dos reis da Espanha repetiu a rota de Colombo para estender-se às costas da Venezuela e, a partir delas, descer até as do Maranhão. A segunda três anos depois, ao deixar a Espanha para servir a Portugal.

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Há alternativa entre privatizar ou colapsar?

12/02/2012

por Saul Leblon no site Carta Maior

Malabarismos semânticos e críticas decepcionadas após a privatização dos três maiores aeroportos do país passaram ao largo de uma dimensão do problema que extrapola o divisor binário em torno do qual as manifestações batem ponto de forma legítima, mas previsível. Por que o Estado brasileiro, afinal, é incapaz de responder com solidez e prazos estritos às demandas da sociedade e às necessidades do desenvolvimento? Afinal de contas, a Infraero está apta a entregar até 2014 e 2016, a infraestrutura capaz de acomodar o incremento da demanda local e o degrau extra adicionado pela Copa do Mundo e pelas Olimpíadas?

Mais do que travar uma queda de braços em torno de convicções à margem dos fatos, seria importante debater por que chegamos a esse ponto. Ou melhor, por que esse ponto de desmantelo do aparelho estatal –fruto de décadas, talvez séculos, de captura pela lógica privada que o aniquila– persiste? E, mais que tudo, o que seria necessário para superá-lo?

Uma primeira providência é não tergiversar sobre o óbvio.

Tome-se a obra de interligação da bacia do São Francisco, para lançar mão de um exemplo que a mídia trata com indisfarçável prazer nos últimos dias. No que consiste? Grosseiramente, em abrir canaletas no relevo sertanejo, área de fácil acesso de máquinas e farta disponibilidade de mão-de-obra. Nada tão sofisticado quanto escavar um túnel sob o canal da Mancha ou rasgar e equipar o acelerador de partículas em território franco-suíço. As obras iniciadas no governo Lula, em 2007, deveriam estar concluídas este ano. Não acontecerá. O ramal norte no trecho do Ceará tem apenas 16% de execução. Alguns canteiros encontram-se abandonados; empreiteiras contratadas simplesmente deixam tudo para trás quando — alegam — os custos superam valores acordados em licitações originais.

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