A letra miúda do caos

Por Saul Leblon no site Carta Maior 

 

No último fim de semana, Atlanta, nos EUA, registrou a maior temperatura de sua história: 41 graus Celsius. A onda de calor foi sucedida de tempestades; vendavais com força equivalente a de um tufão também fizeram 13 vítimas em Washington, na sexta-feira, provocando destruição residencial e falencia no fornecimento de energia. A capital dos EUA está praticamente paralisada desde então, espremida entre o caos e ondas de calor, as mais elevadas dos últimos 135 anos.

No centro e no sul da Espanha os termômetros atingem  cerca de 40 graus: recorde histórico para o verão. Enormes extensões de bosques ardem no pior incêndio em duas décadas, que já consumiu cerca de 50 mil hectares na região da Valencia, em meio à seca infernal.  As mais intensas chuvas de monções em uma década mataram dezenas de pessoas na Índia. Milhares de aves morrem de fome na costa peruana, por conta da escassez de cardumes decorrente do aquecimento anormal das águas do Pacífico, sinal de ocorrência do El Niño, fenômeno cíclico de efeitos magnificados num planeta cada vez mais vulnerável.

As notícias em letra miúda se sucedem. Só alcançam as manchetes quando a escala da engrenagem em curso se explicita em catástrofes épicas — logo esquecidas na inquietante sucessão de registros de pé de página. A letargia permite que as cúpulas globais não incluam o risco ambiental na agenda de urgências impostas pela maior crise do capitalismo desde os anos 30.

Do mesmo modo, o a-historicismo engajado dos verdes se permite discutir o ‘futuro que queremos’, como aconteceu na Rio+20,  sem assumir que a supremacia financeira atual não cabe nesse futuro. Ou melhor, representa a principal ameaça a ele.

Em escala local, a esquizofrenia atinge a agenda das campanhas municipais. Em São Paulo, a convergência entre crise climática e desordem urbana descortina um futuro de equilíbrio equivalente ao espetáculo de um cão chupando manga. Manga de 1.500 km2 de insensatez e concreto. O tema, porém, tem merecido no debate eleitoral a mesma prioridade que os corredores de transporte coletivo e a permeabilidade do solo nas marginais do Tietê desfrutaram no condomínio administrativo Serra/Kassab: zero.

Oremos.

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