Dilma e o Marechal Floriano

A questão militar


Por Lincoln Secco, no Amálgama

Publicado no Blog Escrivinhador

No dia 6 de abril de 1892, oficiais generais do Exército e da Armada lançam um manifesto contra o presidente Floriano Peixoto. No dia seguinte, este simplesmente demite todos os signatários de suas funções e os reforma. É claro que tal “violência” do Marechal de Ferro causa indignação na tropa. Na Bahia, oficiais que apoiam o Manifesto dos 13 Generais mandam publicar sua solidariedade a ele, porém tiram o original da tipografia quando sabem da reação de Floriano.

Segundo o historiador Edgard Carone, que nos conta com detalhes este episódio, no dia 10 de abril do mesmo ano uma multidão se concentrou no Rio de Janeiro para uma homenagem a Deodoro da Fonseca. Floriano logo percebeu que se trata de um golpe contra ele. Sozinho, à paisana, dirigiu-se ao local onde o Tenente Coronel Mena Barreto discursava. Aproximou-se e lhe deu ordem de prisão!

Recentemente, o Clube Militar patrocinou um manifesto contra a presidenta Dilma Rousseff. Ela mandou, através de seu ministro da Defesa, que o documento fosse retirado. Após um breve recuo, os signatários voltaram à carga e disseram não reconhecer a autoridade do ministro sobre eles. A maioria dos “sublevados” é do Exército. Não deixa de ser um alento (embora mínimo) um outro abaixo assinado promovido por oficiais democratas, defendendo a apuração dos crimes da Ditadura.

A situação expõe um problema que foi debatido na Assembléia Nacional Constituinte e que nunca foi solucionado: a tutela militar sobre o poder civil. Fernando Henrique Cardoso, diga-se de passagem, teve o mérito de criar um Ministério da Defesa e deixar à míngua as Forças Armadas. Não porque fosse filho de general e conhecesse bem a soldadesca. Afinal, ele declarou à revista Piauí que brasileiro serve para sambar e não para marchar. É que o sociólogo da USP simplesmente tinha aderido à moda de redução drástica dos gastos com o funcionalismo.

Lula foi sempre um contemporizador. Quando foi lançado em 2006 o livro Direito à Memória e à Verdade, da Secretaria Especial dos Direitos Humanos da Presidência da República, os protestos de militares saudosos dos tempos de repressão aumentaram. Comandantes das três forças armadas criticaram a obra. Embora se tratasse de documento oficial do governo brasileiro, nenhum militar foi punido.

Agora, o Clube Militar lançou um desafio à presidenta Dilma Rousseff. Bem, Dilma não se parece com Lula, que a tudo conciliava. Nem pode repetir Floriano. Ele era militar e ela foi guerrilheira. Fica diante de uma situação aparentemente sem saída. Confronta os que a desafiam, usando para isso a força de sua autoridade incontestável no atual estágio da vida política brasileira? Ou se curva como todos os seus antecessores desde a chamada “Nova República”?

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