Por que só pobre tem parente na cadeia?

 
Por Leonardo Sakamoto no seu Blog

Curta e didática entrevista que foi publicada neste domingo (18), por Kátia Lessa, na revista “sãopaulo”, encartada no jornal Folha de S. Paulo, sobre um grupo de moradores que convocou um panelaço no Parque do Povo (sic), no Itaim Bibi – bairro nobre da capital. A ouvida foi Fernanda Papa, uma das organizadoras do evento:

Qual a inspiração para as panelas? 

Participei do último panelaço na Argentina durante as minhas férias. Temos que aprender com eles a fazer mais barulho. 



O que vocês querem? 

Segurança nas ruas. Poder sair com meu relógio em paz. Convidamos moradores dos bairros de Pacaembu, Morumbi e Alto de Pinheiros.

E o pessoal do Itaim Paulista?
Falei com minha empregada e minha manicure. Elas moram na periferia. Mas grande parte das pessoas de tais regiões tem familiares detidos. Eles não se sentem bem nessa posição. 



Gente diferenciada” pode participar?
Deve. De norte a sul, de leste a oeste. Só não vale político aproveitador.

OK. Todo mundo deve ter o direito de protestar e manifestar suas opiniões em público. Isso é ótimo para a democracia, garante transparência. E uma vez aceitando participar abertamente do jogo político ao falar, também terão que ouvir em algum momento.

Mas é fascinante a terceira resposta: “Falei com minha empregada e minha manicure. Elas moram na periferia. Mas grande parte das pessoas de tais regiões tem familiares detidos. Eles não se sentem bem nessa posição”.

Ah, tá. Ou seja, a maioria da população de São Paulo tem “familiares detidos”.

São respostas que, após uma primeira leitura, se revelam ingênuas, portanto não mereceriam maior crédito. Mas, no fundo,  carregam um preconceito que não surgiu com essa moradora e não morrerá com ela. Obviamente, não é a avaliação que um bairro inteiro faz do resto da cidade, até porque esses bairros não são compostos só de ricos e pobres, e mesmo entre ricos e pobres há divergências de visão. Mas isso faz parte do imaginário de um parcela da população que considera que está havendo uma guerra dos “homens de bem” para proteger a civilização e o seu estilo de vida.

(Isso sem contar o fato de que muitos moradores dos bairros ricos de São Paulo não têm “familiares detidos” porque possuem caros advogados, uma vez que a criminalidade não é monopólio de determinada classe social. Espancamento de esposas e namoradas, por exemplo, não depende do tamanho da declaração do imposto de renda. Além do fato de corrupção e crimes do colarinho branco serem considerados, na prática, menos perigosos do que furto – apesar do dano maior que causam.)

Os índices de violência são muito maiores na periferia do que nos bairros nobres, não só pela diferença de proteção do Estado que decorre da priorização dos administradores públicos em garantir uma vida segura aos seus pares, mas também da falta de políticas para garantir que muitos jovens em bairros pobres tenham uma vida digna e não recorram ao crime. Cresci no Campo Limpo, na periferia de São Paulo. Vi amigos acabarem caindo na tentação, não por falha moral, mas porque foram praticamente empurrados para isso. Queriam ter e ser, nem que fosse por um momento, o que outros já herdaram de berço. As pessoas têm escolha? Sim, claro. Mas o Estado, e sua elite governante, as reduz a algumas poucas. Afinal de contas, a liberdade é censitária no Brasil.

Queria fazer uma sugestão de panelaço para os bairros periféricos neste ano de eleições municipais em que Executivo e Legislativo federais também estão debruçados. Aos protestos contra o aumento nas tarifas de ônibus, por mais segurança nas ruas, por áreas de lazer e esporte para os jovens, por educação decente e por atendimento médico de qualidade, some-se a taxação correta dos ricos deste país.

Uma taxação pesada sobre grandes heranças é um instrumento bastante eficaz para reduzir a desigualdade social no longo prazo, do mesmo modo que a criação de um Imposto sobre Grandes Fortunas – que nunca foi regulamentado e, pelo lobby junto aos congressistas e o governo, nem vai ser tão cedo. É claro que isso pode levar à evasão de recursos para além das fronteiras por contribuintes sedentos em não-contribuir. Contudo a força desse instrumento não reside apenas nos recursos que ele é capaz de arrecadar, mas no simbolismo de um Estado que assume o papel de corrigir distorções históricas e de tratar desiguais de forma desigual.

Pois as mesmas panelas usadas nos protestos de final de semana são os instrumentos de trabalho de alguém nos outros dias do ano. Só que essas só reverberam alto quando estão na mão de quem tem poder econômico. Quem tem faz barulho. Quem não tem faz feijão.

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