Está difícil para todo mundo em São Paulo

Uma derrota em São Paulo pode levar o PSDB a uma longa agonia terminal. A campanha não será um passeio para ninguém. Se insistir no preconceito e no moralismo, como em 2010, Serra pode conduzir a disputa para o esgoto. Ao mesmo tempo, o PT começa a batalha acuado entre a confusão e a defensiva.

Por Gilberto Maringoni, na Carta Maior

Não é nada fácil a vida dos candidatos a prefeito de São Paulo.

José Serra não tinha outro caminho a não ser entrar na disputa. Aliás, o PSDB não tinha outro caminho na não ser ter Serra como candidato. Aliás, O PSDB nacional não tinha outro caminho a não ser chamar Serra para o ringue paulistano.

Não é apenas ele, pessoa física, que faz do embate em outubro próximo a última chance de continuar na ribalta. A crise que mina o PSDB e a parcela da direita brasileira que decidiu ficar na oposição só pode ser estancada com uma vitória em São Paulo. Se o partido perder a maior prefeitura do país, não é Serra que ficará sem palanque em 2014. É o tucanato e seus aliados que serão espremidos entre 12 anos de gestão petista no plano nacional e uma administração municipal que receberá toda a atenção federal possível.

Tirando o PT, o PCdoB, o PSOL e o PSTU – partidos que têm forte presença nos movimentos sociais – nenhuma agremiação brasileira sobrevive fora do Estado. Uma derrota dos tucanos nessa situação pode depená-los em uma lenta agonia terminal.

Por isso não apenas a vitória é decisiva, como a campanha de Serra representará a nacionalização da batalha paulistana. É o terreno mais favorável a ele, pois tirará de cena a gestão Kassab, muito mal avaliada pela população.

Quase aposentado

O ex-governador chegou ao final de 2011 como uma figura próxima à aposentadoria. Isolado pelo governador Geraldo Alckmin, desqualificado publicamente pelo ex-presidente Fernando Henrique Cardoso em entrevista à revista Economist e acuado politicamente pela saraivada de denúncias contidas no bestseller A privataria tucana, o futuro político de Serra não era nada animador. Quatro postulantes já se engalfinhavam pela vaga de candidato a prefeito a ser decidida nas prévias do PSDB.

Um golpe fatal poderia ser dado pela instalação da CPI da Privataria, iniciativa do deputado Protógenes Queiroz. Mas a pá de cal viria com a adesão quase certa de seu principal afilhado político, Gilberto Kassab à coligação petista na capital.

Quando a situação virou? É possível que Serra tenha se animado ao ter a certeza que o governo federal não moveria uma palha para a instalação da Comissão Parlamentar de Inquérito. Ao que parece, o Palácio do Planalto temeu desagradar aliados, que participaram do processo de vendas das estatais, nos anos 1990. Isso fica patente em uma declaração do ex-líder da bancada do PT na Câmara, deputado Paulo Teixeira, no final do ano passado, justificando não apoiar a instalação da CPI.

Disse ele: “Enquanto parlamentar, pensando apenas no meu mandato, teria assinado tranquilamente o pedido de abertura da CPI. No entanto, enquanto líder da maior bancada de sustentação do governo, assumi uma atitude cautelosa, pois durante todo este ano orientei os parlamentares da bancada para que não assinassem pedidos de CPI que pudessem ser identificados como instrumento de luta política. (…) Preservei a instituição da liderança, a relação com outros partidos da base e a postura republicana do governo, que não esta interferindo de nenhuma maneira no processo legislativo”.

Ou seja, Teixeira, um homem íntegro, resolveu não botar a mão num vespeiro “com outros partidos da base” e não fazer “luta política”.

Como se não houvesse luta política no Congresso…

Quem mais ganhou com isso foi, logicamente, José Serra.

Mas a vida está dura para o candidato tucano. Além de ter de acomodar potenciais aliados na composição da chapa majoritária, Serra terá que quebrar a imensa rejeição que acumulou por força de sua saída na metade do mandato de prefeito, em 2008.

Batata quente

Do lado petista, a tarefa imediata é consertar os estragos causados pela desastrada tentativa de aliança com Gilberto Kassab. O prefeito de São Paulo, espertamente, colocou em prática sua máxima de que “não é de esquerda, nem de direita e nem de centro”. Ou seja, tem licença para camalear. A batata quente fica para Fernando Haddad, que terá de mostrar ser oposição a quem queria ter como aliado.

O PT entra em cena com uma cara nova. O PSDB não. Aliás, a última novidade apresentada pela coligação tucana nos últimos anos foi justamente Gilberto Kassab.

Mas o custo da novidade também causa problemas no partido. A ex-prefeita Marta Suplicy não dá mostras de se animar a entrar de cabeça na campanha. Mas o ponto alto da semana, no quesito companheirismo, foi dado pelo novo líder do PT na Câmara, deputado Jilmar Tatto.

Em entrevista ao jornal O Estado de S. Paulo, ele disse o seguinte: “Eu defendo o PMDB para vice de Haddad, mas isso não pode ser colocado como precondição. (…) A questão da vice ou da cabeça de chapa tem de estar colocada para verificar quem tem maior viabilidade”. Ou seja, o parlamentar disse com todas as letras que está disposto a rifar seu candidato, caso a campanha não decole. Tatto era pré-candidato a prefeito em possíveis prévias internas de seu partido. Com a escolha de Fernando Haddad por Lula, o parlamentar teve de desistir da disputa. Ao que parece, mágoas ficaram. Se não forem resolvidas, poderão atrapalhar a campanha.

É bem possível que José Serra volte a levantar o estandarte da moralidade e dos bons costumes em sua campanha, como fez em 2010.

Isso pode afastar setores mais esclarecidos do eleitorado, mas atrairá a direita e o conservadorismo paulistano. Se o fizer, levará a campanha para um nível próximo ao do esgoto. Mas é preciso ver também que o PT no governo quase nada fez para que temas como a descriminalização do aborto ou o combate a homofobia fossem debatidos abertamente com a sociedade. Diante da primeira reação da bancada evangélica, um governo que bate recordes de popularidade recuou. Nenhuma conferência nacional foi convocada, os ministérios dos Direitos Humanos e das Mulheres não tocaram no assunto e o tema está na geladeira.

Quem ganha?

Campanhas eleitorais nem sempre se pautam por disputas políticas explícitas. Aliás, um dos legados do período neoliberal foi justamente o de retirar de cena o caráter político não apenas dos enfrentamentos entre candidaturas e partidos, mas de decisões governamentais.

Como há uma agenda incontestável a ser seguida – envolvendo a supremacia do mercado, a prioridade dada ao pagamento da dívida pública, a privatização de bens e serviços e a contração fiscal permanente – as diferenças entre candidaturas e partidos passaram a se pautar por questões tidas como “técnicas” ou “gerenciais”. Quem fez o melhor programa de combate à pobreza? Quem construiu mais casas? Quem foi o melhor ministro disso ou daquilo? Quem privatiza melhor? 

Quem sairá ganhando num quadro desses? Evidentemente os marqueteiros.

Gilberto Maringoni, jornalista e cartunista, é doutor em História pela Universidade de São Paulo (USP) e autor de “A Venezuela que se inventa – poder, petróleo e intriga nos tempos de Chávez” (Editora Fundação Perseu Abramo).

One Response to Está difícil para todo mundo em São Paulo

  1. Marco Aurélio disse:

    Lembro-me no período da segunda eleição para presidente, Lula candidato à reeleição, do comentário de FHC: “eles são um. Nós somos vários”. Referia-se ao fato de o PT só ter Lula como candidato. Queimou a língua, o falecido. Lula elegeu Dilma, e os “vários” de FHC resume-se a Serra. Em boca calada não entra mosca…

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