Pragmatismo ou disputa de hegemonia?

Por Lincoln Secco no Blog Vi O Mundo

Uma vez iniciado o processo de abandono dos princípios que norteavam a ação de um partido, ele não tem mais volta. Quando os partidos sociais democratas surgiram eles tinham tanta força militante que logo os agrupamentos burgueses os imitaram.

Depois que os trinta anos gloriosos permitiram um interregno de bem estar social na selvageria capitalista, a incorporação da classe operária no consumo de massa cimentou a base de um consenso para o qual todas as forças políticas convergiram. Os políticos chamaram-no de “centro”. Na verdade, um não-lugar da política, onde todos os princípios tornam-se o seu contrário. Aconteceu , então, o contrário da época áurea da Social Democracia: os partidos operários passaram a imitar os burgueses, transformaram-se em “partido pega tudo” e deixaram de lado com a plataforma socialista o seu apelo de classe.

No Brasil, a história do PT mostrou que ele civilizou a sociedade civil, introduziu a pauta ética na política e, principalmente, as questões da democracia social. Seu alto grau de organização fez com que os partidos burgueses invejassem sua estrutura. Tentaram (e tentam) imitá-lo sem sucesso.

Mas eis que o PT começa mais cedo que seus congêneres europeus a se transformar num partido apenas eleitoral, apesar da resistência de muitas lideranças e tendências internas. O recente exemplo da aliança com o prefeito direitista de São Paulo só reforça o sentido da conjuntura petista: trata-se de uma busca desesperada pela hegemonia num Estado em que o PSDB é a força dirigente há muitos anos.

O raciocínio de Lula e seus companheiros é sedutor: uma vez que o partido aceitou as alianças de 2002 para chegar ao poder federal é esperado que na principal cidade do país se faça o mesmo. Desse modo, alguns princípios vão sendo ofendidos em nome da vitória. Como o PT acumulou uma legitimidade ideológica muito grande ao longo de seus primeiros vinte anos, ele se dispôs desde 2002 a gastá-la. Mas seu crédito tem fim. O velho eleitorado petista tem aceitado todas as mudanças por falta de opção à esquerda. É verdade que este velho eleitorado não faz o partido ganhar. Lula comprovou que um novo contingente de eleitores é que lhe deu a vitória. Mas se o velho eleitorado não faz ganhar, ele pode fazer perder. E se não puder, pode retirar do PT aquilo que ainda o diferencia dos demais. Neste caso, uma duvidosa vitória eleitoral será uma bela conquista de cargos, mas não de hegemonia.

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