Se for beber, não escreva!

Minas Sem Censura

Mais um textículo do “líder” da oposição. Agora com o título “Ética e Barbárie” (FSP,05/12/11; texto mais abaixo).

Nele, Aécio fala dos ditadores e tiranos que massacram populações civis. Cita a Síria como exemplo mais recente de desrespeito aos direitos humanos: assassinatos, execuções sem direito a julgamento “justo”, sequestros, tortura etc. Poderíamos acrescentar: invasão de privacidade, calúnia, desqualificações dos adversários, mentira, cinismo e… cara de pau. E nomina Hitler e Stalin como ícones de todo esse processo.

Termina ele criticando disfarçadamente o governo Lula, e fazendo um elogio provocativo a uma suposta evolução do governo Dilma. Ele diz que houve apoio discreto ou explícito a ditadores e tiranetes, por parte de Lula, e que a presidenta estaria superando isso.

Começamos por aí. Indigente, em termos de política internacional, não vamos propor a Aécio que leia mais sobre o assunto. Ciro disse que não adianta. Então, sugerimos: basta pesquisar no Google Imagens com as seguintes palavras: Gadaffi – Condoleezza Rice, Gadaffi – Ângela Merkel, Gadaffi – Sarkosy  etc.

Nenhum dos liberais, defensores dos valores ocidentais cristãos, estará em poses de agressividade com o tirano líbio. Pelo contrário. Suas poses são de amizade. Lembrando: Gadaffi foi executado por um gesto “bárbaro” de mercenários que pretendem controlar a distribuição do petróleo daquele país, para as transnacionais petrolíferas. Agora, fica claro que Gadaffi fez uma transição, na qual se recompôs com os governos dos EUA, Inglaterra, França, Itália, Alemanha, Rússia, Japão e assim por diante.

A propósito: o governo Lula é criticado por atos similares de cortesia e diplomacia, que os liberais acima adotaram. FHC não. Ele foi mais longe. Homenageou Fujimori, com a mais alta condecoração da República e defendeu o terceiro mandato do ditador corrupto do Peru. Que, aliás, está em cana. Cana aí em sentido metafórico, viu Aécio!

Agora vamos para a história da ética e da moral, eventualmente citadas em seus escritos.

Há um opúsculo que indicamos ao ghost writer de sua excelência, para evitar confusões com os dois conceitos: Ética, de Adolfo Sanches Vasques. Neste livro, aprendemos que moral e ética são coisas distintas e que se completam.

A moral, suscintamente, remete ao dilema de indivíduos ou grupos acerca do julgamento de uma ação, esta referenciada em valores. Portanto: ação, valor e juízo são termos descritivos de condutas comportamentais específicas.

Exemplo: um bêbado rico ou pequeno burguês abastado (quem sabe um político famoso), que está num carro e assiste/participa de uma batida, na qual, morre alguém do outro veículo (na rodovia de Nova Lima, MG, por ex.), e se cala para não denunciar o amigo condutor; eis que se expressa, nesse fato, um drama moral. Sabe ele que o amigo é responsável por uma morte. Mas não o acusa, para se preservar e preservar o suposto amigo. Aí temos uma ação, temos valores e temos juízos morais. Mesmo que de público, este suposto pequeno burguês abastado, defenda o rigor da lei.

Outro exemplo de dilema moral, agora diretamente ligado a Aécio. Pego em blitz no Rio de Janeiro, ele se recusa a soprar o bafômetro, é multado por estar com carteira vencida e usa de suas prerrogativas políticas e institucionais (no vulgar: carteirada) para não ser conduzido à delegacia. No entanto, como ex-governador e atual senador ele se pronuncia pela necessidade do rigor da lei. Estão aí também: uma ação, vários valores e juízos implícitos. E uma boa dose de cinismo.

A ética, por sua vez, é a teoria das várias moralidades. Como diriam os filósofos: é a moral em sua “generidade” (e não generalidade).

Exemplo: criticar o ditador sírio (o que é correto) e se calar sobre o Bush (pai), que deu armas químicas americanas a Saddam Hussein, que – por sua vez – atacou a população civil do Irã (matando e deixando centenas de milhares de doentes graves) é uma contradição entre duas éticas (como teoria da moral genérica), além de ser um oportunismo moral inaceitável (o calar-se).

Outro exemplo: calar-se ante a justificativa de Bush (filho) para atacar o Iraque (armas químicas nunca encontradas e que seriam herança de Bush-pai) é também um exemplo de conflito do discurso moral com o respectivo discurso ético. No caso de Aécio, mais falatório vulgar sobre ética e moral, do que discurso.

Ah, uma “universidade” da tortura física e da humilhação moral que funciona em Guantánamo, Cuba, há 50 anos. Lugar onde estão suspensos os mais básicos direitos civis, com afogamentos, choques elétricos, desrespeito à religiosidade dos presos, nenhum tribunal para apelação etc. Tudo isso patrocinado pela mais consolidada democracia do mundo: a dos EUA. Usando sua “camada de autoproteção emocional”, expressão rídicula, que ele acresce a um rol de bobagens semelhantes escritas em artigos anteriores, Aécio nunca se indispôs com Guantánamo!

Esta aula rápida (madureza) sobre eticidade e moralidade serve apenas para dizer. Deixe de ser besta, Aécio!

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Aécio Neves

Ética e barbárie (FSP, 05/12)

Submetidos com frequência rotineira a uma saraivada de informações, estamos perdendo a capacidade de nos horrorizar. É o que chego a temer quando me deparo, por exemplo, com o que acontece hoje na Síria. E não só ali. Quando a violência se banaliza, adormece em nossa consciência moral a necessária reação a ela.

Entre a inércia e o pesadelo, só eventualmente somos despertados pela urgência de um gesto, mínimo que seja, de solidariedade e de comiseração pelo destino dos que são vítimas da barbárie.

No caso da Síria, país onde estão fincadas as raízes de tantos de nossos compatriotas, a camada de autoproteção emocional que nos distancia das tragédias alheias foi rompida na semana passada pelo vigoroso relatório da Comissão Internacional Independente criada pelo Conselho de Direitos Humanos das Nações Unidas.

O que está descrito no relatório, minuciosamente documentado, é uma sacolejada contra toda e qualquer atitude de não envolvimento.

Execuções sem julgamento, assassinatos de crianças, torturas, estupros, prisões arbitrárias, sumiço de adversários são instrumentos costumeiros de uma indiscriminada política de terror.

Civis, desertores do Exército e das forças de segurança, refugiados -223 pessoas, ao todo- arrolaram, para a ONU, um sinistro repertório de violações dos direitos humanos.

Ditadores em sua sanha pelo poder absoluto, ao cometer arbitrariedades contra cidadãos do seu país, transformam seus delitos em crimes contra a humanidade. Atos bárbaros ultrajam a consciência coletiva, alertou a Declaração Universal dos Direitos Humanos, promulgada em 1948 pela ONU.

A partir daquele momento, aberrações como Hitler e Stalin deixavam, definitivamente, de serem acobertadas pelo manto protetor de uma pretensa soberania nacional e passavam a desafiar o silêncio perplexo daqueles para quem a resistência à uma tirania distante se reveste sempre de um senso de inutilidade.

O governo brasileiro parece estar se dando conta disso. Diante da atrocidade, próxima ou distante, ser neutro é ser cúmplice. No minueto da política exterior, o Brasil tem dançado de lado.

Já que o presidente da Comissão Independente para a Síria, em Genebra, é um brasileiro -o competente diplomata Paulo Sérgio Pinheiro, ex-secretário de Estado para os Direitos Humanos no governo Fernando Henrique Cardoso- é até possível que o governo do PT consiga enfim entender, em linguagem familiar e compreensível, o significado do clamor internacional contra este e outros tiranetes.

Envergonha o povo brasileiro o apoio explícito ou discreto que, nos últimos anos, em nosso nome, o governo federal vem oferecendo a ditadores de diferentes regiões do planeta.

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