O Jornal Nacional Mudou?

Do Blog DoLaDoDeLa

Seria de uma ingenuidade tremenda achar que, porque mudou uma das apresentadoras do telejornal, ele ficaria diferente no conteúdo, no dia seguinte. Para fazer o Jornal Nacional são, por baixo, 150 jornalistas em todo o país envolvidos diretamente com ele.

O Jornal nasce no dia anterior, quando a rede (conjunto de produtores baseados no Rio de Janeiro) reúne as ofertas das praças numa previsão. São matérias produzidas, ou a continuação das matérias factuais (suítes). Claro que muitas delas cairão no dia seguinte, conforme a necessidade de “virar” a pauta. Mas existe uma espinha dorsal, chamada no jargão de pré-espelho do jornal.

Numa reunião por volta de meio-dia, começa a nascer o telejornal daquela noite. Ali serão lançadas as ofertas na grade, por ordem de importância. Cabe ao editor-chefe balancear a participação de todos e a fatia de tempo que cada um terá.

Há que se ter um certo jogo de cintura para acomodar tantas pressões: do patrão que recebeu um prêmio, do diretor de praça que não está participando muito do telejornal e se sente desprestigiado, do governador que pediu espaço, do erro cometido no dia anterior, que carece de reparo, do repórter especial, cuja matéria foi engavetada no dia anterior e fez biquinho. Editorias de internacional, esportes, chamadas de outros programas… E por aí vai.

Mudar um produto com esse grau de organização e complexidade exige – antes de tudo – uma mudança de cultura. Algo que não nasce da noite para o dia. A maioria dos profissionais que estão nestas funções têm, pelo menos, 10 anos de casa. Portanto, já estão com a cabeça “formatada” e, não raro, reproduzem mecanicamente as certezas e recomendações da casa em relação aos temas.

Dou um exemplo. A casa gosta de impostômetro, combate à pirataria, ecologia, economia, política, defesa do consumidor. A casa não gosta de minorias, de Enem, de cotas, de índio, de falar mal de cerveja, de denúncias contra laboratórios médicos, e assim por diante…

Para resumir, Patrícia Poeta será a nova apresentadora do Jornal Nacional e ponto. Nada que vier a acontecer com a qualidade da cobertura jornalística daqui para frente vai depender da sua presença na bancada, ainda que tenha papel de editora-executiva. Pelos menos por enquanto, tudo fica como sempre foi. Até quando? Só Deus sabe…

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