A macabra “Geração N”

 

Do Blog da Cidadania de Eduardo Guimarães

 

Quase todos são capazes de entender quando jovens carentes desviam-se do bom caminho – entenda-se da busca pela educação, pela cultura e pelo desenvolvimento de valores morais sólidos e de rejeição a todo e qualquer tipo de preconceito. Não se entende, porém, essa parte considerável da nossa juventude que foi favorecida pela sorte ser composta de seres desprovidos de qualquer senso de dever, de moral, de solidariedade. E o que é pior: até de instinto de sobrevivência.

Recebi da leitora carioca Daniela Bado o link de um vídeo contendo trecho de um telejornal da tevê Bandeirantes em que um jovem conta a uma repórter da emissora em um bar como ele e seus amigos fazem para não ser pegos nas blitz de trânsito feitas para flagrar cidadãos dirigindo sob efeito de álcool. As respostas do rapaz são assustadoras. Revelam uma completa ausência de todo e qualquer senso de cidadania. É uma máquina hedonista que acredita que “o que importa”, na vida, é a “diversão”.

É imprescindível analisar o diálogo entre a repórter e esse rapaz que se diz chamar “Luan Rocha” – que, aparentemente, é de classe social alta – para que entendamos os rumos que esta sociedade está tomando.

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Repórter – Como é seu nome completo?

Luan Rocha – Luan Rocha, eu sou estudante.

Repórter – E aí, vai sair dirigindo daqui hoje?

Luan – É. Com certeza, né. Táxi tá muito caro nessa cidade, né, e a gente vai dirigindo mesmo.

Repórter – E essa cervinha?!

Luan – Então, tem o Twitter da lei seca então agora não tem problema que eu vejo onde tá as rotas da lei seca e aí eu evito ela.

Repórter – Como é que funciona… (inaudível)?

Luan – O pessoal que segue o Twitter da lei seca, quando passa por uma blitz diz: tá tendo uma blitz na avenida tal, altura do número tal e, aí, o cara que tem o Twitter da lei seca repassa pra todo mundo. A gente recebe a informação e evita aquela via. Eu acho que é importante, né, a gente pode evitar a polícia e poder evitar o carro ser aprendido e tomar multa, né [leva o copo de cerveja à boca]

Repórter – Você acha que não é perigoso beber e dirigir?

Luan – É que o meu carro tem ABS e tem airbag também. Então eu to bem mais seguro do que se não tivesse também, né.

Repórter – Mas e se você atropelar alguém que não tem airbag nem ABS?

Luan – Aí a gente paga, paga, né… Sei lá, sei lá, paga uma… Não é propina o nome, meu Deus… Eh, fiança e sai. Eu to falando sério. A gente paga, a gente paga e sai, né. Aquele rapaz do Camaro não pagou 120 mil? Meu carro é um pouco mais barato. De repente a fiança cai também, né.

Repórter – Você está falando sério?

Luan – Estou falando sério. De verdade.

Repórter – Então você bebe mesmo, não está nem aí?

Luan – Sem problema, sem problema. O importante é diversão.

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Não é qualquer carro baratinho que tem airbag e freios ABS e não é qualquer um que pode pagar “120 mil” ou um pouco menos de “fiança”. É óbvio que se trata de um jovem de classe média alta ou rico que não se importa de atropelar – e talvez matar ou aleijar – alguém contanto que ele esteja protegido. Mas em uma coisa ele tem razão: fiança para quem bebe, sai dirigindo e atropela alguém não é fiança, é propina que quem tem dinheiro paga ao Estado para ficar impune.

Quem criou esse anormal? Quem lhe deu carro “com airbag e ABS” certamente pensa igual ao filho: se ele fizer alguma barbaridade no trânsito, pelo menos estará mais seguro. Os pais transmitiram ao jovem a idéia de que, se cometer um crime, por ser de uma família abastada pode simplesmente “pagar”  e sair livre, mesmo que dinheiro nenhum seja capaz de ressuscitar aqueles que ele porventura vier a matar com sua arma motorizada.

Veja, leitor, que o mais assustador não é o fato de um só elemento agir e pensar assim, bem como aqueles que lhe propiciaram os meios para que se porte de tal forma. Repare que o jovem Luan diz integrar um grupo de pessoas que, valendo-se de redes sociais da internet, organiza-se para burlar a lei e colocar a sociedade em risco. Abertamente.

Como chegamos a isso? Houve época em que alguém que se portasse dessa forma publicamente seria execrado pela sociedade. Em países civilizados, aliás, essas pessoas que tomam atitudes que ameaçam a coletividade são duramente punidas e com grande publicidade, de maneira que sirvam de exemplo que desestimule outros a agir igual.

Há teorias recentes que explicam o que está acontecendo com a juventude do nosso país.  A psicopedagoga Maria Irene Maluf, baseando-se em teoria de Rob Asghar, ensaísta e articulista norte-americano, diz que pais de hoje temem perder o amor dos filhos até por se ausentarem de suas obrigações paternais e maternais mais do que antigamente.

Segundo a estudiosa, “Oprimidos pela culpa ou afundados no próprio narcisismo, os pais temem colocar limites em seus filhos e criam crianças que serão eternamente dependentes deles. Sem parâmetros claros, as crianças crescem sem valores: não sabem respeitar os pais, pois nunca ouviram uma repreensão simples como “enquanto uma pessoa fala, a outra escuta”. Se alimentam mal e só comem quando querem”. E arremata: “Pais e mães narcísicos criam fracos”.

Já o psicólogo Caio Feijó, autor de “Pais Competentes, Filhos Brilhantes” (editora Novo Século), ressalta a importância do papel de pais e mães nas expectativas e na autoimagem da criança – e alerta que esse poder é limitado pelo tempo. “Os pais só têm uma influência grande sobre os filhos até antes da puberdade, por volta dos 10 ou 11 anos. Depois disso, vem o resultado”, diz.

A essa parcela da atual geração de jovens brasileiros os estudiosos sociais chamam de “Geração N”, ou “Geração Narciso”, em alusão ao peso do egoísmo e da arrogância de classe que produziram pais que transmitem aos filhos a crença no status social e financeiro como poder supremo e no hedonismo como filosofia de vida.

“Dependendo de como os pais conduzem essa influência, eles criarão expectativas nos filhos sobre o que eles podem ou não alcançar”, diz Feijó. “E o estímulo em excesso pode prejudicar tanto quanto chamar seu filho de burro ou de inútil. A superproteção traz consequências tão graves quanto o abandono”, finaliza.

Segundo esses estudos, as características dos jovens da “Geração N” são as seguintes:

– Não têm noção de limite

– Acham que são merecedores de tudo

– Não sabem se esforçar para conseguir algo

– Não sabem como agir em situações adversas

– São criados por pais narcisistas, que competem entre si

– Não respeitam os outros

Por outro lado, vai surgindo uma classe média baixa que pode se contrapor aos filhos da elite, composta por famílias e jovens batalhadores que fazem da educação e do aprimoramento intelectual e cultural o grande objetivo de suas vidas. Todavia, o exemplo da impunidade dessa parcela da sociedade que se acredita acima da lei e do direito dos menos favorecidos pela sorte pode tornar esse tipo comportamento e visão de mundo um objetivo a ser alcançado.

A televisão põe no ar um mau exemplo como o do jovem Luan mas não põe, depois, as conseqüências de se cometer atos dessa natureza. E não me refiro às conseqüências físicas, como a de alguém que age assim poder se ferir gravemente ou até morrer com airbag, ABS e tudo, mas à penalização desse rapaz ao menos por apologia ao crime. Além disso, haveria que achar essa quadrilha do Twitter que facilita o crime de dirigir embriagado e punir quem a integra.

Autoridades e mídia são co-autoras dessa tragédia que é termos Luans soltos pelas ruas. E essa degenerescência moral não se resume tão-somente ao binômio álcool-direção. Afeta toda a vida social e profissional. Estamos, portanto, criando uma geração de sociopatas. E para quem pensa que a política não pode piorar, lembre-se de que jovens mais abastados têm mais chance de chegar ao poder, um dia. E que qualquer um, pobre ou rico, pode ficar na frente do carro de um deles, uma hora dessas.

 

One Response to A macabra “Geração N”

  1. heltonbiker disse:

    Esse comportamento não é novo, a geração N sempre existiu na elite brasileira, e por sua vez a elite brasileira sempre existiu no Brasil, desde a invasão européia, se caracterizando pelo desprezo com todo mundo que não esteja em seu círculo. Isso fica claro, com relação ao trânsito, no livro “Fé em Deus e pé na tábua”, do sociólogo brasileiro Roberto da Matta.

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