Dilma vai se equilibrando entre degolas e afagos

Balaio do Kotscho, por Ricardo Kotscho

Não é fácil ser presidente da República do Brasil, eu sei. Certa vez, durante uma viagem pelo Oriente Médio no primeiro ano do seu governo, Lula me perguntou, assim do nada, se eu gostaria de ser presidente. Tomei um susto, nunca tinha pensado nisso, e respondi que não, não sou maluco.

Posso imaginar como a presidente Dilma Rousseff está se sentindo antes de completar seus primeiros nove meses de governo, equilibrando-se entre tapas e beijos na relação com a base aliada que herdou.

Horas depois se ver obrigada a mandar quinto o ministro para a degola, o terceiro do PMDB, Dilma saiu dos seus cuidados no Palácio do Planalto e mudou a agenda para fazer uns afagos nos aliados no encontro nacional do partido, ao lado do seu vice Michel Temer, que cobriu de elogios, só para mostrar que a vida segue.

Algo de errado ou estranho nisso? Claro que não. É assim mesmo que funcionam as relações de poder no país desde a vinda da família real ao Brasil em 1808, episódio tão bem contado no livro de Laurentino Gomes. O nepotismo, o compadrio, o patrimonialismo, já está tudo lá.

Em todo lugar do mundo, convenhamos, a política tornou-se um grande teatro, mas aqui no Brasil exageram um pouco, alternando-se entre a chanchada e a tragédia como nesta troca-troca de ministros do Turismo entre Pedro de Sarney e Gastão de Sarney.

Logo no início do governo Lula, quando resolvi fazer uma reforma nas instalações da Secretaria de Imprensa, no Palácio do Planalto, os funcionários mais antigos aconselharam-me a desistir da idéia. Os argumentos foram mais ou menos esses:

_ Não faz isso, doutor. O prédio é tombado…

_ Só pode mexer com autorização do Niemeyer…

_ Tem que fazer licitação, é complicado, demora uma eternidade…

Como eu insistisse em fazer a reforma para tirar um monte de divisórias que tinha lá e montar uma redação, ouvi um argumento definitivo.

_ Deixa assim mesmo…

_ Por que?

_ Porque sempre foi assim…

Se sempre foi assim e não é para mudar, por que então fazer eleições e construir a democracia na base da alternância do poder?

Lembrei-me do desafio que foi convencer os colegas de serviço de que aquela reforma era necessária para melhorar o nosso ambiente de trabalho e, contrariando todas as expectativas, acabou dando certo.

Se para fazer estas pequenas mudanças na Secretaria de Imprensa já foi difícil e levou dois anos, pode-se ter uma idéia do tamanho das dificuldades enfrentadas por Dilma Rousseff para mudar certos hábitos e poderes políticos arraigados em Brasília.

Como fazer a faxina na Esplanada dos Ministérios e, ao mesmo tempo, garantir a tal da governabilidade no nosso presidencialismo de coalização fundado desde sempre no loteamento de cargos e de verbas públicas?

Antes de criticarem a presidente Dilma, sempre recomendo às pessoas que se coloquem no lugar dela.

Devolvo a pergunta do Lula: o que os leitores fariam com o PMDB se fossem presidentes da República?

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